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Nota autobiográfica de Albert Einstein

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Aos sessenta e sete anos de idade, preparo-me para escrever algo que é como o meu obituário. Não o faço unicamente devido à insistência do Dr. Schilpp, mas porque na verdade acredito que é válido mostrar àqueles que lutam ao nosso lado uma retrospectiva da nossa própria luta e das nossas pesquisas. Após alguma reflexão, concluí que essa tentativa provavelmente será imperfeita. Pois, por mais breve e limitada que seja a carreira de um homem, e por maior que seja o índice de erro possível, a exposição de tudo aquilo que é digno de ser comunicado não é fácil tarefa - um homem com sessenta e sete anos não é de modo nenhum o mesmo homem que era aos 50, 30 ou 20. Todas as reminiscências são coloridas com os tons do presente, vistas portanto sob uma falsa perspectiva. Essa consideração poderia ser suficiente para me deter. Contudo, há muita coisa na nossa experiência que não é evidente ao pensamento de muitos.

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Juventude
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Einsten em 1946 aos sessenta e sete anos
Quando eu era um jovem razoavelmente precoce, fiquei completamente impressionado com a futilidade das esperanças e lutas perseguidas incansavelmente pela maioria dos homens por toda a vida. Além disso, logo descobri a crueldade dessa busca, que naqueles anos era muito mais cuidadosamente encoberta pela hipocrisia e por palavras brilhantes do que é o caso hoje. Pela simples existência de seu estômago todos estavam condenados a participar dessa caçada. O estômago pode muito bem ser satisfeito por tal participação, mas não o homem, na medida em que ele é ser que pensa e sente.
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Religião

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A primeira fuga foi a religião, que é implantada em todas as crianças pela máquina da educação tradicional. Assim eu vim – embora filho de pais completamente não religiosos (judeus) – a me tornar um profundo religioso, o que, aliás, acabou abruptamente aos doze anos. Através da leitura de livros científicos populares, eu logo atingi a convicção de que a maioria das histórias da Bíblia não podia ser real. A consequência foi orgia positivamente fanática de livre pensamento combinada com a impressão de que a juventude é decididamente enganada pelo Estado, com mentiras.

Foi um sentimento esmagador. A desconfiança de qualquer tipo de autoridade surgiu dessa experiência, uma atitude cética para com as convicções que estavam vivas em qualquer ambiente social específico – uma atitude que nunca mais me deixou, mesmo que, mais tarde, isso tenha sido amenizado por uma melhor visão sobre as conexões causais.

 É muito claro para mim que o paraíso religioso da juventude, que foi, assim, perdido, foi uma primeira tentativa de me libertar das cadeias do “meramente pessoal”, de uma existência dominada por desejos, esperanças e sentimentos primitivos. Fora dali havia um mundo enorme, que existe independentemente de nós, seres humanos, e que está diante de nós como um grande, eterno enigma, pelo menos parcialmente acessível à nossa investigação e pensamento. A contemplação deste mundo acenava como uma libertação, e eu logo notei que muitos dos homens a quem eu aprendi a admirar e estimar encontraram liberdade interior e segurança nessa busca. A compreensão mental do mundo extra-pessoal dentro do quadro das nossas capacidades se apresentou à minha mente, meio conscientemente, meio inconscientemente, como um objetivo supremo. Homens motivados de maneira similar no presente e no passado, bem como as percepções que alcançaram, eram os amigos que não podiam ser perdidos. A estrada para esse paraíso não era tão confortável e atraente como o caminho para o paraíso religioso, mas mostrou-se confiável, e eu nunca me arrependi de o ter escolhido



Texto extraído do livro Albert Einstein's Autobiographical Notes
(ISBN 0812691792), produzido a partir de escritos de Einstein.

Fonte: The Virtual Library of Reason
Tradução: Maurício Sauerbronn de Moura

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"Sem cultura ética, não há salvação para a humanidade." Albert Einstein
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About Elma.C

Livre pensadora.▃▃ Sou uma mulher que percorre um caminho onde o racionalismo não tem meio termo, que enfrenta as intercorrências de suas próprias escolhas sem culpar-se ou aos outros na busca por justificativas, acreditando que será sempre uma aprendiz onde a existência é um eterno descobrir. Sou uma cidadã brasileira e acho que o melhor lugar do mundo está dentro do nosso próprio interior onde temos o poder de nos libertar ou aprisionar. ✔
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